Presidente de Montalegre defende que mina da Borralha não pode avançar “a todo o custo” e promete “fiscalização apertada”
A Presidente da Câmara de Montalegre, Fátima Fernandes, afirmou esta quarta-feira, 14 de janeiro, que o município encara com apreensão a decisão da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) de emitir uma Declaração de Impacte Ambiental (DIA) favorável condicionada para o projeto mineiro da Borralha, sublinhando preocupações com a utilização de reagentes perigosos, a água, os explosivos e o impacto social junto da população local.
“Não posso pronunciar assim de forma muito aprofundada relativamente a
essa matéria porque ainda não fomos notificados nem teríamos que o ser
oficialmente dessa declaração. Ainda não tive a oportunidade de ler”,
afirmou a autarca, à margem da apresentação da 35ª Feira do Fumeiro de
Montalegre, em Aldeia Nova, explicando que o processo entra agora numa fase em
que a empresa promotora terá de corrigir as situações identificadas.
“A empresa vai ter que tomar as diligências necessárias para corrigir
as situações que foram identificadas e que foram aportadas por tantas e tantas
comunicações que receberam”, disse, acrescentando que o município espera
que “efetivamente sejam tidas em linha de
conta aquelas que são as nossas preocupações”.
Segundo Fátima Fernandes, essas
preocupações centram-se “sobretudo com a
utilização de reagentes perigosos” que “podem
pôr em causa a saúde pública”, bem como com a utilização da água. “Pode haver ali um foco de contaminação da
água”, e a “água é o bem mais
importante que tem de ser acautelado”, sublinhou.
A autarca alertou ainda para o
recurso a explosivos na exploração mineira. “A possibilidade de utilizar tantos explosivos que possam criar ali
algum aluimento. Portanto os técnicos vão ter que ter isso em consideração e
dar uma resposta”, afirmou.
Outro aspeto considerado “mais relevante” prende-se com a
dimensão social do projeto. “Nós não
podemos ter projetos que são muito importantes, não duvidamos da sua
importância para o país, mas à revelia das pessoas que habitam esse mesmo
território isso não pode ser”, disse, defendendo que não se pode “impor fazendo de conta que não existe
gente, que viveu ali toda a sua vida”.
Reconhecendo o passado mineiro da
zona, a Presidente da Câmara recordou que “as
minas da Borralha têm um passado mineiro, é um território mineiro”, mas
frisou que é essencial garantir o cumprimento integral da legislação atual. “Importa salvaguardar que agora todas as
cautelas e toda a legislação que entretanto foi produzida e bem, seja
efetivamente aplicada e seja cumprida e que não aconteça o atropelo que
aconteceu durante dezenas e dezenas de anos”, afirmou.
Fátima Fernandes salientou ainda
a necessidade de a empresa assumir o passivo ambiental existente e proceder à
recuperação paisagística da área. “Sendo
certo que o passivo ambiental também já lá está importa que esta empresa tenha
isso em atenção e cumprindo estritamente aquilo que está na lei se possa fazer
também a recuperação paisagística de todo aquele espaço”, disse.
Entre as “preocupações maiores”, voltou a destacar “a utilização dos reagentes que não está perspetivada naquilo que foi este projeto, a quantificação desses mesmos reagentes e o impacto que tem”, defendendo que “a utilização dessas substâncias tem de ser muito clara”.
“Sabemos bem que é uma parte da população que está desejosa por este
empreendimento, há outra que não, porque considera que colide com a atividade
pecuária que ali também se desenvolve”, afirmou.
Embora considere que o projeto
não põe necessariamente em causa o selo de Património Agrícola Mundial, Fátima
Fernandes lembrou que se trata de “uma
zona objetivamente mais mineira do que ligada à agricultura”, ainda que
exista “uma produção muito significativa
e muito interessante”, nomeadamente do gado barrosão, na freguesia de Salto.
Por fim, garantiu que o município
irá acompanhar de perto o processo. “Para
o município aquilo que é de importância extrema, e vamos estar muito atentos e
com uma fiscalização muito próxima e apertada, tem a ver exatamente com a
utilização dos reagentes”, disse, alertando também para “a utilização da água e a contenção dessa
mesma água por forma a não haver ali uma contaminação dos solos e da barragem
que está ali próxima e dos lençóis freáticos”, bem como para “o uso dos explosivos”.
“É um projeto que sim é importante, é interessante, mas não pode ser
desenvolvido a todo o custo”.
A empresa Minerália assinou em
outubro de 2021 um contrato de concessão com o Estado para a exploração mineira
subterrânea em Borralha. As minas da Borralha abriram em 1903 e chegaram a ser
um dos principais centros mineiros de exploração de volfrâmio em Portugal,
tendo terminado atividade em 1986. A empresa, com sede em Braga, quer explorar
tungsténio e, adicionalmente, produzir concentrados de cobre e de estanho numa
área que tem como aldeias mais próximas a Borralha, Caniçó e Paredes de Salto.
Sara Esteves
Foto: Carlos Daniel Morais
14/01/2026
Sociedade
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