Força Aérea condecora duas enfermeiras paraquedistas com raízes em Vila Pouca de Aguiar


A Força Aérea Portuguesa condecorou, na quarta-feira, dia 10 de dezembro, as enfermeiras paraquedistas Maria Emília Pereira de Sousa e Maria de Lurdes Pereira da Costa Pinto Lobão, ambas com raízes em Vila Pouca de Aguiar, com a Medalha de Mérito Aeronáutico, Primeira Classe.

A homenagem decorreu no Comando Aéreo, em Monsanto, no concelho de Lisboa, e foi presidida pelo Ministro da Defesa Nacional, Nuno Melo, e na presença do Chefe do Estado-Maior da Força Aérea, General João Cartaxo Alves, assim como de outras altas entidades militares e civis.

Segundo nota publicada pela Força Aérea, “a cerimónia pretendeu homenagear as mulheres que desafiaram as tradições da época e, com coragem e audácia, envergaram o uniforme da Força Aérea, arriscando a vida em prol de outras”.

A mesma instituição contextualiza ainda que “conhecidas como ‘anjos descidos dos céus’, entre 1961 e 1974, a Força Aérea formou enfermeiras paraquedistas para atuar em cenários de conflito, tornando-se estas mulheres pioneiras na presença feminina militar, mas sobretudo por terem dado início a uma missão que perdura até aos dias de hoje: as evacuações aeromédicas e os transportes médicos por via aérea”.

Na homenagem estiveram presentes 16 enfermeiras paraquedistas que receberam a condecoração por Nuno Melo, Ministro da Defesa Nacional, e pelo General João Cartaxo Alves, Chefe do Estado-Maior da Força Aérea.

Duas enfermeiras paraquedistas homenageadas têm ligação a Vila Pouca de Aguiar

Maria Emília Pereira de Sousa tem 85 anos, é natural de Trancoso, no distrito da Guarda, mas vive há 27 anos em Souto, na Freguesia de Telões, no concelho de Vila Pouca de Aguiar. Foi enfermeira paraquedista de 1963 a 1966 e relembra que, paralelamente à formação em paraquedismo, teve que fazer a instrução militar como qualquer outro soldado que ia para a tropa, e sempre com instrutores masculinos. A instrução teve uma duração de cerca de cinco meses após os quais fez o seu primeiro salto de um avião.

Na sua vida militar, passou por Luanda, em Angola, e pela Guiné-Bissau, onde realizou 24 saltos de paraquedas no total. Em Luanda, o objetivo era dar apoio aos feridos que estavam no Hospital Militar e acompanhá-los de volta a Lisboa. Na Guiné, o cenário era diferente já que as evacuações eram realizadas no mato.

Perante a condecoração, Maria Emília de Sousa confessou que “não estava à espera, foi uma surpresa, e senti-me bem, senti-me orgulhosa. Quando o nosso esforço e o nosso trabalho são reconhecidos, sentimo-nos sempre bem”.

O contacto foi realizado diretamente da Força Aérea e, na sua opinião, considera que a homenagem já foi “um bocado tarde, mas ainda foi a tempo, vem sempre a tempo”, conclui.

Maria de Lurdes Pereira da Costa Pinto Lobão tem 72 anos e, apesar de viver em Lisboa há cerca de 50 anos para onde foi viver após acabar o curso de paraquedismo, é natural de Raiz do Monte, aldeia que pertence à freguesia de Vreia de Jales, concelho de Vila Pouca de Aguiar. Iniciou o curso de enfermeira paraquedista em 1974 e, “naquele ano, fui a única do curso e a última, depois de mim não houve mais porque acabaram com o curso das enfermeiras paraquedistas”, refere Lurdes Lobão, como é conhecida.

“Eu contava ir para a guerra”, contudo, não serviu fora de Portugal, uma vez que se deu a Revolução do 25 de Abril. Esteve no ativo até 2003, ano em que se reformou com cerca de 30 anos de serviço. “Continuei nos paraquedistas”, esclarece, onde teve várias funções em diversas instituições, até passar para o Exército Português, “e foi lá que acabei as minhas funções no ativo”.

Ao longo da sua carreira há a destacar o facto de ter sido a “primeira mulher a fazer de Oficial de Dia nas Forças Armadas, antigamente eram só homens”. Lurdes Lobão explica este cargo: “todas as unidades militares, sejam de que ramo for, têm um Oficial de Dia, que é a pessoa que fica responsável por tudo o que acontece na unidade nesse dia”. A condecorada afirma que foi a última das enfermeiras, “mas pelo menos fui a primeira em qualquer coisa”.

A enfermeira paraquedista, como se assume ainda hoje, sentiu-se “muito orgulhosa” pela condecoração e deixa um “grande agradecimento à Força Aérea. Nós sentimos muito carinho, e não estou a referir-me só a mim, todas nós sentimos muito carinho pela Força Aérea, o mesmo que não sentimos pelo Exército. Aquelas de nós que passaram para o Exército, porque a maior parte foi sempre da Força Aérea (…) nunca sentimos absolutamente nada pelo Exército, todo o carinho que sentimos é pela Força Aérea”. Reforça ainda que se sentiu “muito satisfeita, muito feliz e agradecida pela Força Aérea que, passado estes anos todos, mesmo as que já deixámos de ser da Força Aérea, ainda se lembraram de nós”.

“As Enfermeiras Paraquedistas da Força Aérea são verdadeiramente heroínas de Portugal”

O General João Cartaxo Alves usou da palavra para enaltecer “tudo aquilo que aquelas militares representaram, não só para a Força Aérea, mas para Portugal”, refere a nota publicada, e ainda o impacto direto do legado delas “na evolução da doutrina aeromédica, na formação de novas gerações de militares e na valorização da mulher no seio das Forças Armadas”.

Na mesma cerimónia, o Ministro Nuno Melo iniciou o discurso, segundo uma publicação na página de Facebook oficial do Ministério da Defesa Nacional, afirmando que “estamos perante mitos vivos (…) que desafiaram riscos e convenções e deram um passo em frente, por vontade própria, num cenário de guerra operacional que, por natureza, estava vedado às mulheres, bem sabendo que podiam perder a vida, mas para salvarem a vida dos outros”. O Ministro da Defesa Nacional elucida ainda sobre uma expressão muito utilizada na altura para se referirem às enfermeiras paraquedistas. “O facto de os militares lhes chamarem ‘anjos que desceram do céu’ exprime o tributo mais sentido porque é definido pela gratidão de quem, no momento mais difícil das suas vidas, se sentiu mais seguro e protegido por causa das enfermeiras paraquedista da Força Aérea”.

Ainda no seu discurso, Nuno Melo dirigiu às enfermeiras presentes “a mais sentida homenagem, também em nome do Governo. Corajosas e destemidas, as enfermeiras paraquedistas foram pioneiras e as primeiras mulheres nas Forças Armadas. Foram também mulheres muito à frente do seu tempo, foram, e são, um tremendo orgulho, abriram asas e fizeram história. A Força Aérea Portuguesa continua a voar também engrandecida por este exemplo”, concluiu o Ministro desta forma o seu discurso.

Na nota publicada pela Força Aérea Portuguesa, esclarecem que “a Medalha de Mérito Aeronáutico destina-se a galardoar os militares e civis, nacionais ou estrangeiros, que no âmbito técnico-profissional revelem elevada competência, extraordinário desempenho e relevantes qualidades pessoais, contribuindo significativamente para a eficiência, prestígio e cumprimento da missão da Força Aérea”.

Ainda de acordo com a mesma fonte, depois das condecorações “procedeu-se ao descerramento de uma placa de homenagem às enfermeiras paraquedistas que ficará eternizada no Comando Aéreo, em Monsanto, enquanto órgão da Força Aérea com competência para na atualidade coordenar as missões de Evacuações e Transportes Aeromédicos”.

 

 

Ângela Vermelho

Fotos: Força Aérea Portuguesa


13/01/2026

Sociedade


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