Zero critica apoio de 110 milhões a projeto de lítio em Boticas e fala em “cheque em branco” do Governo


A associação ambientalista ZERO repudiou a decisão do Governo de atribuir até 110 milhões de euros à empresa Savannah Resources para o projeto de exploração de lítio em Boticas, considerando que se trata de um “cheque em branco” e exige a suspensão “imediata” deste apoio.

Em comunicado, a ZERO manifesta “total indignação e repúdio” face ao apoio financeiro público, atribuído pelo Estado português, através da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP), à Savannah Resources, sublinhando que a decisão surge “num contexto de profunda contestação popular ao projeto” e resulta da “ausência de uma legislação adequada e de uma Estratégia Industrial Verde, há muito prometida pela Lei de Bases do Clima”.

Segundo a associação, “é inaceitável que o erário público seja utilizado para subsidiar uma atividade que tem sido marcada pela falta de transparência”, apontando como exemplo a “celebração pouco clara de contratos de concessão que acrescentaram mais de mil hectares à área de exploração no Barroso”.

O apoio é concedido, de acordo com a empresa britânica, no âmbito do Quadro Temporário de Crise e Transição da Comissão Europeia e do Regime Contratual de Investimento. O incentivo corresponde a até 35% das despesas de investimento elegíveis e assume, maioritariamente, a forma de apoio não reembolsável. “Do montante máximo previsto, cerca de 82,2 milhões de euros destinam-se às despesas iniciais de capital do projeto, enquanto 27,4 milhões de euros ficam dependentes do cumprimento de parâmetros de desempenho na fase operacional, conforme explicado pela Savannah Resources, numa nota enviada.

A ZERO sustenta ainda que o Estado tem sido relegado para um papel secundário, afirmando que este investimento representa “o culminar de um modelo que menoriza o papel do Estado, reduzindo o Laboratório Nacional de Energia e Geologia a um papel decorativo e deixando o país totalmente dependente de uma iniciativa privada desregulada e pouco fiscalizada”.

No comunicado da Zero, a associação critica o Governo por ignorar a oposição das populações locais, defendendo que “ao avançar com este ‘cheque em branco’, o Governo ignora deliberadamente a ausência de licença social para a indústria mineira operar em Trás-os-Montes”, num contexto em que, e segundo a associação, os impactos ambientais e sociais superam largamente os benefícios.

A ZERO alerta também para os riscos ambientais associados ao projeto, considerando que “o passivo ambiental que resultará destas explorações ameaça inviabilizar o potencial dos territórios enquanto suporte de vida digna para quem neles habita”, acrescentando que esta abordagem “prova que esta não é a transição justa que o país necessita”.

Outro ponto criticado é o destino da matéria-prima, “primordialmente a alimentar a indústria alemã com acordos preliminares que garantem a exportação” do lítio, colocando “o contribuinte português numa posição de absoluta insustentabilidade”.

Segundo a associação ambientalista, os cidadãos acabam por suportar “uma tripla fatura”: “primeiro, através da subsidiação direta de 110 milhões de euros a uma empresa privada; segundo, pela exposição ao risco de o projeto não conseguir ter viabilidade técnica-económica”; e, por fim, “pelos custos inerentes à recuperação do passivo ambiental que, como é norma no setor, acabarão por recair sobre o erário público”.

Para a ZERO, este modelo “privilegia a exportação em bruto em detrimento da criação de valor no território nacional”, beneficiando “multinacionais e centros industriais do norte da Europa”, enquanto Portugal “sacrifica o seu património natural e a qualidade de vida dos seus cidadãos”.

A associação conclui exigindo “a suspensão imediata deste apoio e uma reavaliação profunda da política mineira nacional que coloque o interesse público e a salvaguarda ambiental acima dos interesses de grupos privados”.

A mina do Barroso, em Covas do Barroso, obteve uma Declaração de Impacte Ambiental (DIA) condicionada em 2023, e a Savannah prevê iniciar a produção em 2028. O projeto está classificado como ‘Projeto Estratégico’ ao abrigo do Ato Europeu das Matérias-Primas Críticas e continua a ser contestado por várias associações, população, ambientalistas e autarcas.

 

Sara Esteves

Foto: Associação Zero


13/01/2026

Sociedade


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